quinta-feira, agosto 2

Não. Claro que não.

Há muito tempo que não me sentia assim...
Atingi um novo fundo. Porque desta vez já me imaginava fora do poço.

Queria escrever o que se passou comigo durante este ano lectivo com melhor detalhe, mas agora não é o momento.

Só posso dizer que o ano lectivo que decorreu, que foi passado em Lisboa, permitiu-me recuperar alguma da paz que tinha em mim, vivi lá alguns dias felizes.
Apesar de nos primeiros tempos ter-me sentido bastante mal, a longo prazo tudo foi acalmando, e cheguei até a ter a ilusão de que algo realmente tinha mudado. Talvez a minha ausência tivesse potenciado alguma reflexão nos meus pais, ou até uma nova forma de ver as coisas.
Eu tentei ver as coisas de forma diferente. Perdoei-os. Ou pelo menos quero-me convencer de que o fiz.
Agora sei que só eu mudei. Mas isso não é suficiente. Não é.
Talvez já o soubesse, afinal, uma parte do que me fez sentir melhor comigo próprio foi aceitar que eles nunca iriam mudar, e que por isso tinha de adoptar estratégias diferentes. E não, não estou a falar da mentira.


Foram meses em que apesar do esforço que fiz para conciliar o primeiro ano de estudos universitários com o facto de viver sozinho num local desconhecido, estando a aprender a amar, realizando frequentemente viagens Porto<->Lisboa, e tentando sempre ter o melhor aproveitamento possível; tinha ganho um novo equilíbrio psicológico de que muito sentia falta.


No entanto duas semanas bastaram desde que estou no Porto todos os dias, em período de férias, para que toda essa construção mental que fiz durante este ano que passou ficasse seriamente danificada.

É muito triste perder a esperança nas pessoas e chegar ao ponto em que já não convivemos com elas, apenas as suportamos. Magoa-me.

Tenho também medo desta minha nova capacidade de converter feridas em ódio.
Não é algo que sirva. Só alimenta o monstro.

Na verdade bastaram dois dias para eu perceber que as coisas não estavam bem.

Nesse segundo dia das minhas “férias” o meu pai (supostamente acidentalmente) pega no meu telemóvel e lê uma (ou talvez mais do que uma) mensagem que o I. me tinha enviado, sem o meu conhecimento. A mensagem continha algo inocente, que quaisquer dois namorados diriam um ao outro. Acontece que no dia seguinte sou confrontado por ele, dizendo-me que devia ter vergonha e dignidade, pois andava a destruir a família e que enquanto vivesse debaixo do seu tecto teria de respeitar as suas regras, e “fazer-me homem”.
Resumidamente: O meu pai não mudou um milímetro.

E os dias foram passando, aliás, nessa mesma hora, mal a conversa terminou, já tudo tinha voltado à “normalidade” na visão do meu pai. Esses momentos nunca ficam gravados na mente dele, afinal:
“Que mal é que eu te fiz?” Nenhum pai, nenhum.

Falarei agora do conceito de férias.
Como o negocio que sustenta a minha família é gerido por nós, toda a gente está envolvida no processo; ou melhor: o meu pai, a minha mãe, e eu. A minha irmã não é para cá chamada porque... Bem, não interessa, nem eu sei.
Então, isto significa que eu afirmar que estou de férias é um insulto. Afinal, os meus pais trabalham exclusivamente para me sustentar, e logo tenho de fazer tudo o que me peçam, e claro, ainda mais importante, o que não me peçam.

E vou fazendo. Às vezes reclamo e faço (50%), outras vezes não reclamo e faço (40%), até existem vezes que não faço (10%).
O que faço? Bem, tudo o que a empresa precisar, desde a tarefa mais mundana, à mais elevada.

Mas tudo bem, eu não me importo de ajudar. Mesmo não tendo sido eu a escolher este projecto de vida, e este negocio, a verdade é que dependo dele. E mesmo ocupando ele as 24 horas da nossa vida familiar, não havendo espaço para mais nada; enfim, que posso eu fazer senão tentar ajudar os meus pais?

O maior problema, na verdade, é não existir um único obrigado, especialmente por parte do meu pai. Afinal, “não faço mais do que a minha obrigação”.

Mas face ao que aconteceu hoje mesmo, tudo isto acaba por ser só o lixo e a merda que entope o cano.
Falta agora que alguém puxe o autoclismo para que tudo venha ao de cima.

E o meu pai puxou-o hoje.

A minha mãe começa a discutir comigo porque não encontra uns papeis de um assunto que eu tinha tratado (estavam na secretaria debaixo de outros que o meu pai tinha posto em cima), e o meu pai, farto dos constantes berros dela, grita e ameaça agredir a minha mãe num acesso de loucura. Não agrediu, nem nunca o fez, mas só a ameaça é grave.

Depois deste acontecimento foram-me ditas várias palavras e frases, daquelas que nos dilaceram bem lá no fundo. A culpa de tudo fora transportada imediatamente para mim.

O meu pai disse que não aguentava mais a minha presença e que eu devia era ir-me embora de casa, que eu “não o conhecia”... e outro tipo de ameaças e de frases para me deitar a baixo.
A minha mãe depois, já na ausência dele, culpa-me de toda esta situação, dizendo que nunca me irá perdoar, e que todos os problemas na minha casa foram causados por mim. (Pela minha homossexualidade, pelo facto de me ter ido embora, por não colaborar com eles, por os ver como meus inimigos...)

Lembro-me de uma vez ter visto um programa sobre pessoas que contavam as suas experiências de quase morte em salas de cirurgia.
Também já tive várias, em casa, e esta é só mais uma no meu registo.

Logo depois de tudo isto, fecho-me no meu quarto a chorar, e ligo para o I..
Precisava de algum alento. Ele conforta-me como pode. Acalmo um pouco.

Nisto chama-me o meu pai normalmente para o ajudar a despejar o lixo.

Afinal, passou-se alguma coisa? Não. Claro que não.

Passo por membros da minha família que estavam na rua, e tento reduzir ao mínimo o contacto para que não reparem na cara miserável que tenho agora. O meu pai fica a conversar com eles, a socializar.

Afinal, passou-se alguma coisa? Não. Claro que não.

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