sábado, outubro 30

Sol, e chuva

Tinha chegado de um jantar com amigos meus do básico. Diverti-me muito. Ficou mais uma vez confirmado, que são a melhor turma que já tive.

Chego a casa ás 00h e vou directo ao quarto de banho. O meu pai aparece e diz-me a que horas iríamos para Lisboa hoje, e de seguida pergunta-me com quem vou.
Mais uma desculpa, mais uma mentira:
Vou encontrar-me com um amigo meu, que andou comigo na escola x. Já não o vejo à muito tempo, pois os pais dele tiveram que se mudar para Lisboa por motivos profissionais.


O meu pai ainda me informa que não vou só com ele no carro e quer que eu almoce com ele. Convite que infelizmente tive que recusar de imediato.

Acabo de tomar banho e ligo para o I, começo a dar-lhe informações sobre a tal escola para que esta mentira dê certo (se é que alguma vez uma mentira "dá certo"). Mas, à medida que começo a ter noção da dimensão que isto está a tomar, que como uma bola de neve vai ficando cada vez maior e maior, sinto-me cada vez mais perdido e desorientado. Uma das possíveis soluções é contar aos meus pais a verdade.

Por um lado tinha um encontro com a pessoa que amo, que podia correr mal, e fazer com que o meu pai ficasse a saber de tudo da pior maneira possível. Por outro, podia acordar os meus pais e contar a verdade.

Falei com o I., com a L. e com o B. Todos me tentaram ajudar e compreenderam a minha situação, mas eu sei que eles não podiam decidir por mim.
Então, fiquei horas recolhido em mim, horas que não passavam, em que a dúvida, a culpa e o medo me dilaceravam o coração e me embriagavam a racionalidade. A única certeza que tinha, era que uma decisão tinha que ser tomada.
O tempo passava e o meu desespero só aumentava. Estava cada vez mais perdido, desorientado, triste e sem forças.
Ás 3h da manhã o meu pai acorda para ir ao wc. Penso: "Só tenho duas alternativas, e uma delas só pode ser tomada agora."
Abro a porta do meu quarto. Saio. Perco as poucas forças que tinha e volto atrás.
"Eu, tu um dia vais ter que o fazer, e não há melhores ou piores dias. Há um dia." - dizia-me a minha razão.

Volto a abrir a porta do meu quarto, digo ao meu pai que quero falar com ele, e peço-lhe para entrar.
O resto da família dormia.

Eu- Pai, tenho que te dizer uma coisa. Eu não me vou encontrar com um colega meu.
Pai- Então? Vais-te encontrar com uma amiga?
Eu- Não pai.
Pai- É alguém que conheces-te na internet? Quem é? Deves dinheiro a essa pessoa? Aconteceu alguma coisa de grave?
Eu- Não pai. Não. Quero-te contar algo, mas não consigo.
...
Pai- Filho, amanhã falamos, eu quero ir dormir.
Eu- Não, não vás! Ouve-me. Prometes que me ouves até ao fim?
Pai- Sim filho.

Depois de várias tentativas que fiz, em que som nenhum saia, apenas suspiros e silabas desconexas, ganho um pouco de coragem, principalmente porque não podia recuar, e digo-lhe.

Eu- Pai, eu sou gay.
Pai- Oh filho! Eu estou cansado, vou dormir.
Eu- Não pai! Ouve-me! Eu estou a falar a sério contigo.
...
Pai- Mas o que é isso de "ser gay"?
Eu- Sinto-me atraído por homens.
Pai- Oh filho! Não me faças isso! Como é que te sentes atraído por homens?
Eu- Pai, não te sei explicar, sinto-me atraído sexualmente por homens, e não pelas mulheres.
Pai- Tu estás confuso. Sabes, a juventude é uma das melhores alturas da tua vida e também uma das mais difíceis. Depois vamos a um psicólogo ou psiquiatra, não sei, e tratamos desse desvio.
Eu- Pai eu não estou doente para ir a um psiquiatra, e eu não escolhi ser gay. Nasci assim e pronto.
Pai- Mas filho, isso não é normal, a sociedade não aceita esse tipo de coisas, exclui. Tu estás confuso. Como nunca tiveste sexo com uma mulher talvez tenhas ido por esse caminho. Eu trabalho tanto para te dar o melhor. Sabes, ás vezes se não fosse pela família a minha vontade era largar tudo. A tua mãe tem andado tão triste. Não lhe faças isto. Não nos envergonhes. Eu sempre te dei tudo o que precisas-te. Eu sabia que a internet não ia ser usada para o fim que eu comprei. Podias usar a internet para ampliar os teus conhecimentos, mas não o fazes. Como é que sabes que gostas de homens? Isso é algo temporário. Sei que estás a passar por uma fase complicada da vida. Mas não nos podes fazer isto. Esse tipo de gente é rejeitada. Toxicodependência, homossexualidade... tudo isso são dificuldades que podemos resolver. Nós esforçamo-nos tanto. Eu eduquei-te a ti e à tua irmã da mesma forma. E estou muito orgulhoso de vocês. Mas não me faças isto. O caso casa pia por exemplo. Essa gente é assim. Tu não és assim. Depois nós falamos sobre isso em família.

...

E muitas mais coisas me disse ele. Sempre sereno, deixava-me intervir, eu sempre tentando tirar estes bichos da cabeça dele. Concordei em ir a um psicólogo, embora mais tarde dependa do psicólogo que for. Conversamos mais um pouco, e fui-me deitar. Também tive que concordar que não ia a Lisboa hoje.
Acabamos a conversa ás 3h20.

Hoje de manhã, acordo com o choro do meu pai a falar com a minha mãe. Nunca tinha ouvido o meu pai chorar. Ouvia no meu quarto pedaços da conversa, que confirmaram que ele estava a falar da nossa conversa. Notei que a minha mãe refutava muitas das ideias que devem estar a destruir o meu pai por dentro, e que o acompanham desde que se conhece.

Tenho tanta pena dele. Não o queria desiludir desta forma. Ele não merece.
Agora, vou levantar-me e encarar a minha mãe pela primeira vez. Não sei qual será a reacção dela. Mas algo me diz que vai ser de compreensão. Ou na pior das hipóteses idêntica à do meu pai. Calmo e confuso.

A minha vida vai mudar. Não sei o que se segue. Mas eu algum dia tinha que o fazer, parece que esse dia foi hoje. Agora vou ter que conversar com os meus pais e ajudá-los a ultrapassar o que eu sozinho já ultrapassei.

Quanto ao meu estado de espirito, e como me sinto. Bem, defino-o como o tempo de hoje. Sol e chuva simultaneamente.

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